Episódio 3: O Carnaval!
- Fernanda Cordeiro

- Nov 1, 2021
- 8 min read

No terceiro episódio do Slow Brazilian Portuguese falamos um pouco sobre a principal festa popular brasileira, o Carnaval. Você irá aprender diversas curiosidades sobre a origem do Carnaval, de outras celebrações semelhantes ao redor do mundo e também o que os brasileiros realmente acham desta grande celebração. Ficou curioso? Então venha conosco.
O audio do episódio está disponível nas plataformas Apple (iTunes), Spotify, Anchor e Google Podcasts.
Transcrição:
Episódio 3 – O Carnaval!
Olá tudo bem?
Bem vindo ao terceiro episódio do Just Brazilian Portuguese!
O assunto de hoje faz parte da minha rotina de brasileira vivendo no exterior e é o carnaval. Isso mesmo, as frases que mais ouço aqui na França quando alguém descobre que sou do Brasil é: nossa já fui ao carnaval do Rio de Janeiro e ele é maravilhoso ou então tenho muita vontade de ir para o Brasil no carnaval.
Esse evento com certeza é a principal festa popular brasileira, mas você conhece a origem do carnaval? Sabia que o carnaval do Brasil é muito mais rico e variado e não se resume à festa carioca? Além disso, você já se perguntou o que os brasileiros realmente acham do carnaval?
Hoje nós vamos falar sobre tudo isso e muito mais então não saia daí...
Vinheta (de samba?)
O carnaval dos dias de hoje é festejado pelo mundo cerca de 47 dias antes da Páscoa e além do Brasil existem outras comemorações bem conhecidas como as festas de Nova Orleans (Estados Unidos), Veneza, Ilhas Canárias na Espanha e Nice aqui na França. Apesar dessa ligação com a religião, o carnaval é muito mais antigo e tem origem em rituais dedicados aos deuses desde os tempos da Antiguidade.
Na Babilônia, por exemplo, se festejavam as chamadas Saceias, uma comemoração onde um prisioneiro assumia o papel do rei por alguns dias, morando no palácio e dormindo com as suas esposas, sendo morto ao final da festa. Ao mesmo tempo, o rei era agredido e humilhado no Templo do deus chamado Marduk, como prova da sua condição inferior em relação às divindades.
Já no Antigo Egito, a passagem do inverno para a primavera era comemorada pelos pagãos como forma de homenagear os deuses e pedir a eles uma boa colheita. A partir da conquista do território egípcio por Alexandre o Grande, a comemoração foi levada para a Grécia onde toda a população sem qualquer distinção de classe social podia participar dessa festa. Na mesma época os romanos também adotaram a comemoração, dessa vez em homenagem a um outro Deus, Saturno, deus da agricultura. Nesse período as escolas fechavam e romanos e escravos podiam dançar, comer e beber livremente pelas ruas.
Todas essas festas já traziam a noção de carnaval como ele é hoje, ou seja, uma comemoração em que a ordem social pode ser esquecida, ou deixadas de lado, e escravos e servos festejam em condições de igualdade com os senhores.
Alguns pesquisadores explicam que a palavra carnaval tem origem na festa romana, onde homens e mulheres desfilavam pelas ruas sem roupas, a bordo de carros que se pareciam com navios. Esses carros eram chamados de carrum navalis que significa carro naval em latim. Mas a teoria mais aceita é que a palavra carnaval vem da expressão latina carnis levale, algo como ficar sem carne, pois a partir da Idade Média a Igreja Católica quis dar um outro sentido às festas pagãs. Assim, apesar de permitir essa certa continuidade de uma festa pagã a Igreja instituiu ou criou a chamada Quaresma, um período que antecede a Páscoa e no qual o consumo de carne e outros comportamentos considerados pecaminosos são proibidos, pois trata-se de uma fase de penitência em memória dos 40 dias que Jesus passou no deserto e seu sacrifício na cruz. Essa seria uma forma de limitar a duração das festas e despertar uma reflexão nos fiéis.
O problema é que se a ideia era que as pessoas usassem o carnaval para se preparar para a Quaresma, o que aconteceu foi justamente o oposto: na Itália por exemplo, sabendo que deveriam fazer penitências por 40 dias, as pessoas acabavam aproveitando o período do carnaval para cometer vários excessos ou exageros antes desse período, organizando banquetes e bailes que não tinham fim.
Um ponto em comum em todas as comemorações de Carnaval é que as pessoas podiam desde muito antigamente se fantasiar, usando acessórios para se esconder ou até mesmo para trocar de identidade. Além da liberdade para se divertir, isso permitia uma troca de papéis: homens podiam ser mulheres e pobres se transformavam em ricos por alguns dias. Por exemplo em Veneza, a elite usava máscaras para poder festejar no meio do povo sem ser reconhecida, daí a origem do uso desse adereço ou acessório que é tão famoso até hoje.
A partir da expansão do cristianismo, essa tradição se espalhou pelo mundo, principalmente na época das colonizações, fazendo com que o carnaval também fosse levado a muitas outras partes do mundo, mesmo que ele seja comemorado de forma diferente em cada lugar.
Mas e no Brasil?
Vinheta
Os portugueses levaram para o Brasil uma versão de carnaval bem diferente da que a gente conhece hoje. No início não havia nem música nem dança. A festa inicial se chamava Entrudo, uma brincadeira em que basicamente as pessoas molhavam ou sujavam umas às outras com lama, ovo, farinha e até urina. Há relatos que a própria Família Real portuguesa praticava essa brincadeira em salões.
Já os escravos trazidos da África festejavam o carnaval misturando ritmos da sua terra natal às músicas portuguesas, dando origem a outros ritmos musicais, entre eles o samba.
O entrudo acabou sendo proibido a partir do século 19, por conta da influência dos carnavais europeus, que eram considerados mais civilizados. Assim, como acontecia na França, as elites brasileiras adotaram o hábito de jogar confetes, serpentinas e flores em bailes organizados em salões. Confetes e serpentinas são pequenos papéis e fitas coloridos e decorados especificamente para o carnaval para serem lançados no ar.
Ao mesmo tempo, o povo comemorava o carnaval pelas ruas ao som das marchinhas, um gênero musical com letras que criticavam a sociedade e a situação do país de uma forma geral.
Nos anos 30 surgem no Rio de Janeiro as primeiras escolas de samba, que se chamavam assim porque os fundadores da primeira delas estavam num bar em frente a uma escola. Até os anos 1980 surgiu a maior parte dessas instituições que conhecemos hoje. Elas costumavam fazer desfiles pelas ruas até que, em 1984 ganharam um lugar construído especialmente para elas: o sambódromo do Rio de Janeiro que aliás foi desenhado pelo arquiteto Oscar Niemeyer.
Apesar de ser o carnaval mais conhecido e difundido ou mostrado no mundo, a festa de rua continua acontecendo no Rio de Janeiro e em todo o Brasil. Para você ter idéia no carnaval carioca de 2020 cerca de 507 blocos saíram às ruas, levando consigo um público de quase 6,5 milhões de pessoas.
Mas não é só na chamada Cidade Maravilhosa que a festa é um fenômeno. Na Região Nordeste do Brasil as comemorações são bem diferentes, mas super animadas também!
Em Salvador, na Bahia, o carnaval é comemorado pela multidão que segue os veículos chamados trios elétricos, de onde artistas e bandas fazem seus shows seguindo uma rota que passa por várias ruas. É isso mesmo, um show em movimento. Lá o tipo de música que predomina é o axé, uma mistura de ritmos africanos e latinos criada pelos baianos. Além disso grupos de percussão como Timbalada e Filhos de Gandhi animam a festa.
Já em Olinda, Pernambuco, a comemoração é feita ao ritmo do frevo e a marca registrada da festa são os bonecos gigantes que são criados especialmente para o carnaval. Eles representam jogadores de futebol, artistas, políticos e outras figuras conhecidas e são usados normalmente para fazer humor e críticas sociais. Alguns blocos começam seus desfiles já no início da manhã, o que se torna um desafio para aqueles que festejaram até de madrugada no dia anterior.
Esses são só alguns exemplos de comemorações do carnaval pelo país, onde podemos ainda encontrar festas com música eletrônica na região Sul e ritmos criados a partir da cultura indígena no Norte.
Toda essa animação parece confirmar aquela noção que os estrangeiros têm de que nós brasileiros nascemos praticamente sambando e que todos sem exceção amam o carnaval. Mas será que assim mesmo?
vinheta
Se existe uma coisa que é unanimidade entre os brasileiros é que o feriado do carnaval é sagrado. Ele faz parte do calendário oficial e apesar de ser sempre em uma terça-feira, a maioria dos comércios e instituições não abre na segunda-feira. Os bancos, por exemplo funcionam na véspera do Natal em 24 de dezembro, mas não funcionam na véspera da terça-feira de carnaval. Deve ser por isso que é muito comum ouvir que no Brasil o ano só começa realmente depois do carnaval!
Isso não quer dizer que todos os brasileiros planejem cair no samba, ou seja, dançar o samba. Segundo uma pesquisa, apesar de esperarem ansiosamente pelo feriado, em 2019 por exemplo cerca de 66% dos brasileiros fugiria das festas e aproveitaria para descansar. Esse percentual é proporcional à idade das pessoas, ou seja, quanto mais velho maior a chance de não comemorar. A maioria das pessoas que não festejaria cerca de 54% justificou que não gosta de carnaval. É isso mesmo, o carnaval não é uma unanimidade no Brasil!
Entre aqueles que adoram festejar, os principais motivos são que no carnaval a energia e a alegria são tão altas que o povo esquece dos seus problemas. As pessoas são livres para festejar em igualdade, é uma festa para todas as idades e todos os gostos musicais, você pode assistir os desfiles em um sambódromo, curtir os blocos de rua ou as festas típicas de cada região do país, ou seja, as pessoas se reúnem em todos os lugares e você só fica sozinho se quiser.
Já para as pessoas que preferem fugir do carnaval, um dos principais motivos é o excesso de nudez tanto nas ruas quanto na televisão, algo que prejudica a imagem das mulheres brasileiras pelo mundo. Além disso, outras reclamações são o excesso de pessoas em todos os lugares, a alta nos preços dos bares em função da própria festa e o abuso no álcool que pode resultar em situações de desrespeito e violência. Além disso, o fato de festejar quatro dias em um país com muitos problemas é visto como uma espécie de alienação, ou seja, uma fuga da realidade.
Uma das razões pelas quais eu acho que o carnaval é tão importante para o brasileiro vem da nossa própria relação com o trabalho. A colonização e a escravidão no Brasil provavelmente fizeram com que o trabalho fosse visto por aqui muito mais como um castigo do que como uma fonte de progresso. Assim, o fato de festejar quatro dias inteiros, sem precisar trabalhar e em igualdade de condições entre classes sociais diferentes tem um significado muito mais forte do que em outros países que também festejam a data.
Argumentos a favor ou contra o fato é que o carnaval é a festa que tem mais impacto na economia brasileira, atraindo turistas internos e externos. Em 2020, estima-se que em todo Brasil foram movimentados cerca de 1,6 bilhão de dólares só com essa comemoração. Em 2021, devido à pandemia o carnaval foi cancelado em todo o país, mas várias cidades, entre elas o Rio de Janeiro, claro, já confirmaram a festa em 2022.
Mas e você? Ficou animado para conhecer o carnaval do Brasil? Já esteve por lá? Entra lá no nosso site e deixa sua opinião. A transcrição desse episódio também estrá lá te esperando. Até a próxima!



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